6 de abril de 2025
Imagem meramente ilustrativa: Pixabay

Imagem meramente ilustrativa: Pixabay

Frente à crescente preocupação com a saúde mental das crianças, o Relatório Situação Mundial da Infância 2021 revelou estatísticas alarmantes relacionadas ao Brasil. Os dados destacam que quase um em cada seis meninos e meninas entre 10 e 19 anos enfrenta algum tipo de transtorno mental, aumentando consideravelmente os riscos de automutilação, depressão e pensamentos suicidas. A psicóloga Priscilla Vasconcellos, da Rede Hospital Casa, enfatiza a necessidade urgente de prestar atenção aos sinais de alerta e de oferecer o suporte necessário para garantir um desenvolvimento saudável das crianças.

“Felizmente, atualmente, tanto a depressão quanto o bullying estão sendo encarados de forma mais acolhedora pela sociedade. Isso facilita a compreensão por parte das famílias, levando a uma busca por ajuda profissional ao identificar os primeiros sinais e sintomas. Isso proporciona a oportunidade de lidar de maneira mais eficaz com essas questões, uma vez que a saúde mental tem um impacto direto nas emoções e, consequentemente, nas ações das crianças”, destaca a psicóloga.

Sinais de Alerta

A depressão e o bullying são desafios críticos enfrentados pelas crianças atualmente. Reconhecer os sinais de alerta, como mudanças súbitas de comportamento, é fundamental para intervir precocemente e garantir a saúde mental das crianças.

“Às vezes, o comportamento birrento, a má educação ou a agressividade, quando intensos e constantes, podem indicar um quadro depressivo. As crianças, por vezes, não expressam esse quadro com tristeza, mas sim com agitação e irritabilidade. Sinais de alerta podem incluir alterações no sono e apetite, falta de concentração (que afeta o desempenho escolar), sentimentos de culpa, baixa autoestima, agressividade, humor instável e isolamento social”, ressalta Priscilla Vasconcellos. A psicóloga também menciona que muitas crianças e adolescentes perderam entes queridos durante a pandemia de COVID-19, o que, juntamente com o isolamento social, afetou a saúde mental deles.

“O estresse, o medo, a desconexão com o ambiente escolar e atividades, o convívio familiar e social comprometidos, e, principalmente, a desinformação tiveram um impacto direto. Isso não apenas afetou nossas rotinas como sociedade, mas também expôs e agravou sentimentos que poderiam estar latentes antes da pandemia, como ansiedade e baixa autoestima, além de revelar situações de abuso e violência de diversas formas”, lembra a profissional, que acredita na importância da conexão e do apoio para reconectar com os jovens.

“Estratégias de aproximação com a criança, prestando atenção às queixas e necessidades, e o retorno às atividades sociais são boas opções para um retorno gradual à ‘normalidade’ e para fortalecer os laços.”

Meu filho sofre bullying, como ajudá-lo?

A psicóloga Priscilla Vasconcellos destaca que a atenção dos pais, educadores e da comunidade desempenha um papel crucial na promoção da saúde mental das crianças. Ao oferecer um espaço seguro para que as crianças expressem seus sentimentos e preocupações, é possível construir um suporte emocional significativo que fortaleça a resiliência emocional dos pequenos.

“Pais e educadores têm um papel extremamente importante, já que as crianças os veem como referência e é fundamental que elas sintam que podem contar com essas pessoas para receber acolhimento, através da promoção do diálogo e da atenção ao que é dito. O discurso pode conter diversos sinais”, explica a especialista. Ela também ressalta a importância de criar um ambiente seguro para que a criança compartilhe seus sentimentos.

“Diálogo, acolhimento e compreensão são essenciais. Além disso, é relevante estimular a habilidade da criança de se defender, o que não significa incentivar a vingança ou a agressão, mas sim fazer com que ela saiba que tem o direito de falar sobre o que está acontecendo. Com o acompanhamento de profissionais, seja psicológico ou psiquiátrico, é possível transformar a experiência do bullying em um aprendizado que fortaleça a criança.”

Meninos e meninas têm formas distintas de lidar com seus problemas

“Estudos mostram que, em geral, as questões de saúde mental afetam mais as meninas. Elas tendem a sentir mais tristeza, a acreditar que ninguém se preocupa com elas, a pensar que a vida não vale a pena, e a lidar com a pressão da busca pelo corpo ideal, que é amplamente promovido pelas redes sociais. Além disso, tendem a querer enfrentar essas situações sozinhas e a não compartilhar o que estão passando”, diz a psicóloga.

Ela enfatiza a importância do acolhimento e do diálogo: “Pais e cuidadores devem estabelecer um diálogo sem julgamentos, buscando entender como a criança se sente e qual é a melhor maneira de obter ajuda, que pode incluir a assistência de profissionais, como psicólogos. Fornecer apoio emocional às crianças ouvindo-as, destacando suas qualidades e conquistas como pontos positivos, pode fazer com que elas se sintam capazes.”

Resiliência como medida preventiva

Priscilla Vasconcellos, psicóloga da Rede Hospital Casa, sugere elogiar as conquistas das crianças, estimulando-as a reconhecerem o que têm de melhor. “A resiliência pode ser ensinada e cultivada, não é necessariamente inata. Incentivar brincadeiras e leituras que promovam o senso de pertencimento, elogiar os esforços das crianças, construir sua autoestima, ensinar empatia e apresentar exemplos de personagens reais ou fictícios que superaram desafios podem mostrar às crianças que não estão sozinhas e que todos enfrentam dificuldades”, conclui a especialista.